O vulcão está em erupção Lavas surgem a todo momento E transformam a paisagem primitiva, urros do vento, dores de um parto
De um princípio único que se molda e desfaz e refaz até encontrar a forma a cratera mostra as entranhas do ser vermelha e forte que escorre e se banha e nutre toda terra
Quando a noite chega e me vejo sozinho, olho dentro de mim — as camas desfeitas, repletas de amor e carinho. Sinto no ar a infância, um doce desejo de ninho. Sapatos no chão, restos vivos do dia.
Fragmentos que ficam sem pedir licença, sem parar para pensar. A vida segue ligeira, e vamos nós, sem ver os pequenos pontos, que brilham no escuro e nos guiam por onde formos.
Faz muito tempo que parei. De refletir, de contar histórias da minha vida e dos que me cercam. Tornei-me uma ilha. Só, a observar o mundo à minha volta.
Jogos de palavras são para poetas. Sou alguém que rabisca palavras que não me sustentam.
Por um instante, deixo a minha ilha. Atravesso o oceano, encontro os que me cercam e conto histórias de mim. E os que me ouvem, atentos, se imaginam num filme.
Mas as palavras cessam. O coração se aquieta. Pertenço agora ao mundo daqueles que sorriem à minha volta. E, ao longe, vejo a ilha se afastando, deserta.
Restam lembranças — como palavras na areia que desaparecem.
Sinto o toque na minha pele: é macio, terno, quente. quase esquecido
brinco com suas mãos, vejo o meu sorriso nos seus olhos. Na escuridão do quarto, deixo-me levar.
Desperta uma infância quieta, um coração que hesita antes de bater mais forte. Que nome dar a isso que chega devagar, como se sempre tivesse estado ali? Ainda frágil, ainda novo — mas já profundo o bastante para permanecer.
Estou ficando muito fácil, ficando quase tátil, me tornando pátio para quem quiser entrar. Engulo — como cachaça — e, de gole em gole, vou perdendo o contato. Já nem ouço a voz no rádio, não reflito o que é frágil, e assim, sem artifício, vou ficando — eu mesmo — fácil.