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Autor: paradigma

Vulcão

O vulcão está em erupção
Lavas surgem a todo momento
E transformam a paisagem
primitiva, urros do vento, dores de um parto

De um princípio único que se molda e desfaz
e refaz
até encontrar a forma
a cratera mostra as entranhas do ser
vermelha e forte
que escorre e se banha
e nutre toda terra

A noite

Quando a noite chega
e me vejo sozinho,
olho dentro de mim —
as camas desfeitas,
repletas de amor e carinho.
Sinto no ar a infância,
um doce desejo de ninho.
Sapatos no chão,
restos vivos do dia.

Fragmentos que ficam
sem pedir licença,
sem parar para pensar.
A vida segue ligeira,
e vamos nós, sem ver
os pequenos pontos,
que brilham no escuro
e nos guiam
por onde formos.

A ilha

Faz muito tempo que parei.
De refletir,
de contar histórias
da minha vida e dos que me cercam.
Tornei-me uma ilha.
Só,
a observar o mundo à minha volta.

Jogos de palavras são para poetas.
Sou alguém
que rabisca
palavras que não me sustentam.

Por um instante, deixo a minha ilha.
Atravesso o oceano,
encontro os que me cercam
e conto histórias de mim.
E os que me ouvem, atentos,
se imaginam num filme.

Mas as palavras cessam.
O coração se aquieta.
Pertenço agora ao mundo daqueles
que sorriem à minha volta.
E, ao longe, vejo a ilha se afastando,
deserta.

Restam lembranças —
como palavras na areia
que desaparecem.

Despertar

Sinto o toque na minha pele:
é macio, terno, quente.
quase esquecido

brinco com suas mãos,
vejo o meu sorriso
nos seus olhos.
Na escuridão do quarto,
deixo-me levar.

Desperta
uma infância quieta,
um coração que hesita
antes de bater mais forte.
Que nome dar a isso
que chega devagar,
como se sempre tivesse estado ali?
Ainda frágil,
ainda novo —
mas já profundo o bastante
para permanecer.

Saias

Gosto de ver as saias esvoaçando:
o perfume,
o balanço,
as curvas,
as formas
que me atravessam como vento.

Caminhava firme

Caminhava firme
A areia batia em meus cabelos dourados de sol
Os pés sentiam o cansaço da trilha

Ia pelo deserto
A pé
Ninguém para ver ou visitar
Apenas eu
Que não posso parar

Ao lado do deserto,
Um oceano imenso
Quanta solidão!

Não posso parar
Na parede do quarto daquela casa à beira mar Escrevo em papéis velhos
Desenho e rabisco em grafite na parede

Lobos uivando ardiam em meu peito
Solos de violão desfibrilavam minhas veias
Descortino as frestas dessa visão
Abro os olhos
E o chão já não está lá

E continuo na caminhada
Não canto para ninguém
Só o vento frio da tarde pode me ouvir
E os lobos seguem seu caminho

(Inspirado na música A horse with no name, America)

Fácil

Estou ficando muito fácil,
ficando quase tátil,
me tornando pátio
para quem quiser entrar.
Engulo — como cachaça —
e, de gole em gole,
vou perdendo o contato.
Já nem ouço a voz no rádio,
não reflito o que é frágil,
e assim, sem artifício,
vou ficando — eu mesmo — fácil.

Dores

Tenho dores!
Elas
representam
o meu
caminho
E a minha cura!

Página virada

Conto rasgado,
roído pelo tempo.

Rasgo o papel —
amasso o que fui
naquela página
ainda pulsando,
aflita de ter vivido.

Viro.

Tento escrever.
restos de versos
procuram forma
em folhas,
que já não encontro.

Passado

Revisito o passado.
Passo por aquela porta ainda entreaberta.

Vejo as fotos que fizeste de mim:
memórias cristalizadas.

Vejo as fotos que fiz de ti.
Pareces feliz.

Instantes que já não existem.
Onde colocar toda a bagagem
para seguir a caminhada?

Página virada