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Autor: paradigma

Velejando

Hoje há mais clareza, paz.
Momentos difíceis passam,
outros vêm.
Foram tempos confusos —
e eu achava que eram outros.
Uma música me transporta,
a acidez no sangue me leva
para onde avisto
o mar,
o céu,
a tempestade,
a imensidão da terra.
Navego como onda,
em mar mais suave,
como quem já velejou bastante
e encontra repouso
na calmaria.

Horizonte

Quando avisto o horizonte azul,
Brilhante,
Ou miro o verde,
Razante,
Dos campos infinitos
E dos bosques amigos,
Vejo o céu e a linha tênue que se une à terra.
E tanto faz se a linha é reta como no mar,
Ou se faz desenhos de ondas nas montanhas mansas,
Ou se formam agulhas como nas cordilheiras.

Gosto mesmo de imaginar
Céu e terra que se unem para parecer um só,
que caminha
até esta bruma imaginária.
E sigo adiante para encontrar estrelas,
Que ao entardecer vão surgindo,
Pouco a pouco,
Tímidas,
Até que ao cair da noite infestam o céu.
Ah, quando avisto esse horizonte,
Seja onde for,
É um voo raso,
É um sentimento de pertencimento,
É uma melodia que sobe o tom,
Onde mergulho e me desfaço.

Paisagem

TRISTE

OU

ALEGRE

É

UMA

PAISAGEM

QUE

SE

ESPELHA

Quadriculado

Neste papel quadriculado
eu e minha mania
de ver geometria:
lados retos, ângulos certos.

Mas você me fez ver
curvas, formas arredondadas,
como elas podem ser suaves
e que o mundo não é só paredes
que construímos à nossa volta.

Os pós da estrada

As propagandas na estrada criavam um imaginário tentador,
mas o gosto é seco e dói na garganta.
Do alto da carroceria do caminhão, avisto uma flor.
— Pare! Eu quero descer! —
Pulo no chão: capricho ou emoção?
Um retrato de vida magnífico.
Desabrocha a imaginação:
preto e branco ou em cores,
tanto faz.
Tudo é o mesmo instante,
parado, estanque,
como a flor que agora vi.
Fotografo.
recorto, colo
em uma folha de papel.
A flor, já morta de sua beleza,
serve-nos com seu saber ancestral.
Congelamos a emoção
que escapa, fugidia.
Nada se captura,
tudo impregna:
células,
Retina.

Restam imagens
que alguém escuta
e refaz à sua maneira.

Sonho de amor

Meu sonho
de amor
É um olhar
brilhante
intenso
de ser
(tanto)
que quase
dói

Nômade

Não tenho berço na terra,
mas gosto do seu cheiro quando a chuva chega.
Não tenho o cinza das cidades,
mas nelas vivi muitos dos meus dias.
À beira do mar, respirei suas brisas;
o sal e a areia me pertencem.
Vejo-me nômade, sem chão.
Lugar nenhum me completa —
e, ao mesmo tempo, sou parte de todos.

Narciso puro

Embora tenha sido feito
assim, perfeito –
Narciso puro,
gosto da desordem,
da margem,
do andar sobre a linha tênue
e selvagem.

Garoto

Pula, garoto,
a poça de lama —
suja o pé,
pisa na grama,
lava a mão.
Brinca, garoto.
Vive tua infância.
Vem, garoto,
agora e sempre:
mantém acesa
dentro de mim
tua luz.

Amendoeiras

Gosto de amêndoas,
amendoeiras,
muros baixos,
amores doces,
castanhas tostadas.
Gosto do dendê,
da cocada preta,
da brisa na varanda,
da rede —
e da vontade quieta
de nunca mais crescer.