Hoje há mais clareza, paz. Momentos difíceis passam, outros vêm. Foram tempos confusos — e eu achava que eram outros. Uma música me transporta, a acidez no sangue me leva para onde avisto o mar, o céu, a tempestade, a imensidão da terra. Navego como onda, em mar mais suave, como quem já velejou bastante e encontra repouso na calmaria.
Quando avisto o horizonte azul, Brilhante, Ou miro o verde, Razante, Dos campos infinitos E dos bosques amigos, Vejo o céu e a linha tênue que se une à terra. E tanto faz se a linha é reta como no mar, Ou se faz desenhos de ondas nas montanhas mansas, Ou se formam agulhas como nas cordilheiras.
Gosto mesmo de imaginar Céu e terra que se unem para parecer um só, que caminha até esta bruma imaginária. E sigo adiante para encontrar estrelas, Que ao entardecer vão surgindo, Pouco a pouco, Tímidas, Até que ao cair da noite infestam o céu. Ah, quando avisto esse horizonte, Seja onde for, É um voo raso, É um sentimento de pertencimento, É uma melodia que sobe o tom, Onde mergulho e me desfaço.
As propagandas na estrada criavam um imaginário tentador, mas o gosto é seco e dói na garganta. Do alto da carroceria do caminhão, avisto uma flor. — Pare! Eu quero descer! — Pulo no chão: capricho ou emoção? Um retrato de vida magnífico. Desabrocha a imaginação: preto e branco ou em cores, tanto faz. Tudo é o mesmo instante, parado, estanque, como a flor que agora vi. Fotografo. recorto, colo em uma folha de papel. A flor, já morta de sua beleza, serve-nos com seu saber ancestral. Congelamos a emoção que escapa, fugidia. Nada se captura, tudo impregna: células, Retina.
Restam imagens que alguém escuta e refaz à sua maneira.
Não tenho berço na terra, mas gosto do seu cheiro quando a chuva chega. Não tenho o cinza das cidades, mas nelas vivi muitos dos meus dias. À beira do mar, respirei suas brisas; o sal e a areia me pertencem. Vejo-me nômade, sem chão. Lugar nenhum me completa — e, ao mesmo tempo, sou parte de todos.
Pula, garoto, a poça de lama — suja o pé, pisa na grama, lava a mão. Brinca, garoto. Vive tua infância. Vem, garoto, agora e sempre: mantém acesa dentro de mim tua luz.
Gosto de amêndoas, amendoeiras, muros baixos, amores doces, castanhas tostadas. Gosto do dendê, da cocada preta, da brisa na varanda, da rede — e da vontade quieta de nunca mais crescer.