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Velejando

Hoje há mais clareza, paz.
Momentos difíceis passam,
outros vêm.
Foram tempos confusos —
e eu achava que eram outros.
Uma música me transporta,
a acidez no sangue me leva
para onde avisto
o mar,
o céu,
a tempestade,
a imensidão da terra.
Navego como onda,
em mar mais suave,
como quem já velejou bastante
e encontra repouso
na calmaria.

Claridade

A mente já estava cansada,
mas me lembro de ver o céu —
e, a cada estrela cadente,
uma lembrança retorna.
Um sorriso escapa,
leve como você,
que me ensinou a ver
luz dentro de casa.

Cordas

As cordas do meu corpo
vibram
e tocam
a minha melodia

Os arcos do meu corpo
se curvam

Vergam
e sustentam
a minha presença

Prontos para o toque

Luz azul

Da janela vem a luz azul
Entre todas as cores
E perpassa todo o meu ser
Sentimento aflorado
O medo não é mais invisível
E se espelha no arco-íris
Onde reconheço o seu tom
Absorvo e respeito
Entrego ao universo
E sigo adiante

Instante

Um instante só
é só isso que preciso:
ver o dia clarear,
o sol subir novamente
atrás do morro
ou do mar,
aonde for, nesta terra.
Num instante só,
à beira de um portal,
de uma igreja
ou de um templo,
algo pulsa —
e me faz crer.
Tudo flui:
a semente germina,
se multiplica,
e floresce
na árvore frondosa.
E virão os ipês.
E as águas seguem
por entre pedras,
cumprindo seu destino —
e me fascino.
E por que seria diferente conosco?
Fica um resto de flor,
de alma,
de sopro.

Seja qual nome se dê
é apenas um artifício,
e angustia a razão.
Virão as chuvas,
limparão o ar,
o vento levará o que resta.
E a vida se refaz
num instante só.

Fui feliz

Fui feliz
lá no meio de tudo:
dos rios, das cachoeiras,
do tempo que chovia
e molhava as pedras.
Pedra menina,
ainda pequena.
E eu também.
Fui feliz ali
tão pequeno,
inocente,
diante da imensidão
da beleza,
das cores,
do todo.

Amendoeiras

Gosto de amêndoas,
amendoeiras,
muros baixos,
amores doces,
castanhas tostadas.
Gosto do dendê,
da cocada preta,
da brisa na varanda,
da rede —
e da vontade quieta
de nunca mais crescer.

Garoto

Pula, garoto,
a poça de lama —
suja o pé,
pisa na grama,
lava a mão.
Brinca, garoto.
Vive tua infância.
Vem, garoto,
agora e sempre:
mantém acesa
dentro de mim
tua luz.

Nômade

Não tenho berço na terra,
mas gosto do seu cheiro quando a chuva chega.
Não tenho o cinza das cidades,
mas nelas vivi muitos dos meus dias.
À beira do mar, respirei suas brisas;
o sal e a areia me pertencem.
Vejo-me nômade, sem chão.
Lugar nenhum me completa —
e, ao mesmo tempo, sou parte de todos.

Sonho de amor

Meu sonho
de amor
É um olhar
brilhante
intenso
de ser
(tanto)
que quase
dói