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Os pós da estrada

As propagandas na estrada criavam um imaginário tentador,
mas o gosto é seco e dói na garganta.
Do alto da carroceria do caminhão, avisto uma flor.
— Pare! Eu quero descer! —
Pulo no chão: capricho ou emoção?
Um retrato de vida magnífico.
Desabrocha a imaginação:
preto e branco ou em cores,
tanto faz.
Tudo é o mesmo instante,
parado, estanque,
como a flor que agora vi.
Fotografo.
recorto, colo
em uma folha de papel.
A flor, já morta de sua beleza,
serve-nos com seu saber ancestral.
Congelamos a emoção
que escapa, fugidia.
Nada se captura,
tudo impregna:
células,
Retina.

Restam imagens
que alguém escuta
e refaz à sua maneira.

Quadriculado

Neste papel quadriculado
eu e minha mania
de ver geometria:
lados retos, ângulos certos.

Mas você me fez ver
curvas, formas arredondadas,
como elas podem ser suaves
e que o mundo não é só paredes
que construímos à nossa volta.

Paisagem

TRISTE

OU

ALEGRE

É

UMA

PAISAGEM

QUE

SE

ESPELHA

Horizonte

Quando avisto o horizonte azul,
Brilhante,
Ou miro o verde,
Razante,
Dos campos infinitos
E dos bosques amigos,
Vejo o céu e a linha tênue que se une à terra.
E tanto faz se a linha é reta como no mar,
Ou se faz desenhos de ondas nas montanhas mansas,
Ou se formam agulhas como nas cordilheiras.

Gosto mesmo de imaginar
Céu e terra que se unem para parecer um só,
que caminha
até esta bruma imaginária.
E sigo adiante para encontrar estrelas,
Que ao entardecer vão surgindo,
Pouco a pouco,
Tímidas,
Até que ao cair da noite infestam o céu.
Ah, quando avisto esse horizonte,
Seja onde for,
É um voo raso,
É um sentimento de pertencimento,
É uma melodia que sobe o tom,
Onde mergulho e me desfaço.

Narciso puro

Embora tenha sido feito
assim, perfeito –
Narciso puro,
gosto da desordem,
da margem,
do andar sobre a linha tênue
e selvagem.

Outra estória

E o que vem agora?
Ficar pensando?
O amanhã já é outra estória
e eu,
embriagado de ontens,
lúcido demais, quase cego.
Então,
sopre leve a brasa no meu peito,
reacenda o que há em mim,
deixe-me abrir os braços.

O real e o imaginário

Entre o real
e o imaginário
há o abismo em que vivemos.

Lá e cá,
entre mergulhos
no escuro do mar
e a plenitude —
a potência do sol
sobre a colina fresca.

É um sobrevoo,
uma onda que vai e vem,
como folha ao vento.

Não há culpa
nem castigo,
apenas a observação
do que se é.

Controle

Quero controlar tudo,
mas nem controlo
os simpáticos e parassimpáticos.
Quero controle.
Projeto a existência —
o amanhã,
a vida —
e ela escapa,
sempre mais veloz que eu.
Quero que a valsa não termine,
mas nem me disponho
a dançar.
Preso por correntes
aos pés
das minhas crenças.

Me imagino

Às vezes me imagino ali:
invento quadros na parede,
flores pela casa,
mesa posta,
livros e poesias na estante,
a casa cheia de vida.
Uma varanda, uma luz vinda do Sul,
um vento frio e sereno.

No entanto, a realidade se impõe:
a estante tem pó,
as flores murcharam,
os livros já não se abrem,
o vento fere o rosto,
a varanda se cobre de folhas caídas,
e a casa está vazia.

Mas ainda me imagino ali —
com um coração que insiste,
e faz pulsar, na fantasia,
algo vivo.
E por um instante raro,
quase único,
nada falta.

Esconderijos

Quero algo que me leve
para o buraco,
para o espaço —
onde eu deixe de existir.

Porra.
Para de encarar esse abismo.
Para com essa fissura.

O vazio,
quieto, esperando,
sabe a hora.

Por enquanto,
ficar na margem —
sem truques,
sem esconderijos.