Skip to main content

O que insiste

Faça o que precisa ser feito
não espere mais
não adie o gesto
amanhã é tarde

faça sem ansiedade
sem ruptura
sem pressa

Faça
centrado
naquilo que insiste ser
mesmo sem nome

Saberá quando retornar a ti
na face do outro
na palavra do outro
no reflexo que te reconhece.

Êxtase

Respiro no silêncio.
Pássaros atravessam o ar.
As cordas que me prendiam cedem —
os nós, frouxos.
Coube a mim desatá-los.

Escolho o caminho:
um pé diante do outro.

No leito do rio,
pedras —
um anseio.

Ainda assim,
deixo fluir.

Finitude

o relógio aponta a hora
sempre ouvi o tic-tac
e os sinos das igrejas

marcando chegadas
e partidas
começos
nascimentos
e mortes

observo a vida passar
vejo os outros
quase nunca a mim
esqueço os momentos vividos
levarei tudo comigo
ou fico nas raízes que deixo?

Nada a declarar

Não tenho mais nada a declarar.
Calei-me diante da miséria humana,
incapaz de compreender,
ou sequer traçar
a rota que me levaria adiante.

Chega de papéis amassados
rabiscados de desejos ingênuos.
Chega de trilhas sonoras
que já não dizem nada.

Passei. Estou passado pela vida.
Há tempo
sou vivido por ela.

O que restou?
Nada a declarar.

Amigos

Que frio!
Que bom rever
velhos amigos.
Talvez nem tanto.

Viveram no mesmo tempo
que eu,
que nós,

histórias difusas
que se reencontram,
confusas
nos risos atrasados.

histórias de cada um,
de cada memória,
únicas,
perenes,
adocicadas
pela bruma
no copo gelado.

Dores

Tenho dores!
Elas
representam
o meu
caminho
E a minha cura!

Caminhava firme

Caminhava firme
A areia batia em meus cabelos dourados de sol
Os pés sentiam o cansaço da trilha

Ia pelo deserto
A pé
Ninguém para ver ou visitar
Apenas eu
Que não posso parar

Ao lado do deserto,
Um oceano imenso
Quanta solidão!

Não posso parar
Na parede do quarto daquela casa à beira mar Escrevo em papéis velhos
Desenho e rabisco em grafite na parede

Lobos uivando ardiam em meu peito
Solos de violão desfibrilavam minhas veias
Descortino as frestas dessa visão
Abro os olhos
E o chão já não está lá

E continuo na caminhada
Não canto para ninguém
Só o vento frio da tarde pode me ouvir
E os lobos seguem seu caminho

(Inspirado na música A horse with no name, America)

Fácil

Estou ficando muito fácil,
ficando quase tátil,
me tornando pátio
para quem quiser entrar.
Engulo — como cachaça —
e, de gole em gole,
vou perdendo o contato.
Já nem ouço a voz no rádio,
não reflito o que é frágil,
e assim, sem artifício,
vou ficando — eu mesmo — fácil.

Página virada

Conto rasgado,
roído pelo tempo.

Rasgo o papel —
amasso o que fui
naquela página
ainda pulsando,
aflita de ter vivido.

Viro.

Tento escrever.
restos de versos
procuram forma
em folhas,
que já não encontro.

Cara

Cara,
que cara amarrada,
que coisa danada:
conflito cerrado,
cadência travada.
Cara,
parece cristão;
cospe no chão,
cruza as mãos,
cerra a paixão —
fé sem pulsão.
Cara,
caí no seu vão,
sem escolha, então;
difícil exclusão:
somos irmãos.
Cara cordato,
companheiro pacato,
que sabe de tudo
e esconde a emoção;
chora, mas não
pede perdão.
Parte o pão,
abençoa o coração.