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Pedaços

Eu guardo pedaços da sua vida que você nem imagina.
Às vezes quero que esteja aqui,
abrindo portais de sonho;
às vezes te quero longe,
onde só a memória alcance.
Sentimento estranho
que vem à boca
e se debruça sobre o papel
encardido de recordações.
Flores brancas na porta,
vermelhas nas cercas-vivas —
solitárias,
à espera de se encontrarem

A dor no peito

O que é essa dor no peito?
Um ponto agudo
que, ao toque, insiste.
Algo de dentro
à beira de emergir —
e preso.
Vai e volta.
Lateja.
Sossega.
E volta a avisar:
é hora de romper.
Não há corpo que contenha.
Vontade de despejar o que ficou:
a mala que nunca partiu,
papéis escondidos,
livros não lidos,
palavras por dizer.
Até quando?
Se os passos na areia
cedem às ondas —
Preciso vomitar.
Preciso.
Não há mais tempo.
Não há mais ninguém.
Só a solidão
assiste ao que fui.
Quero jogar tudo fora
e partir
em busca de mim.

A mesma palavra

Não chamamos amor à mesma palavra.

De você, vem de dentro:
gesto puro, ingênuo,
ao mesmo tempo
volátil e mutante.
De mim, vem do centro
onde me equilibro:
gesto tenso, maturado,
perene e sincero.

Passado

Revisito o passado.
Passo por aquela porta ainda entreaberta.

Vejo as fotos que fizeste de mim:
memórias cristalizadas.

Vejo as fotos que fiz de ti.
Pareces feliz.

Instantes que já não existem.
Onde colocar toda a bagagem
para seguir a caminhada?

Página virada

Andorinha

Onde está você agora
que já não te vejo?
Onde anda essa andorinha?
Solta pelo céu?
E nós ainda aqui…
vendo a brisa tocar os cabelos,
sentindo um perfume que permanece,
um coração que insiste em pulsar.
Onde anda você, menino
de cabelos loiros,
que voou — leve —
feito um passarinho?
Assim, de repente.
Sem avisar.
Sem dar tchau.
Como sempre foi:
breve e alegre.
E quando um dia
a terra tocar o céu,
nos encontraremos.
Voaremos alto —
para entender, enfim,
como é a vida por aí.

Onde ninguém escuta

Tento convencer o outro
de algo que eu ainda não sei.
Falar — pra quê,
se ninguém escuta.
Falar — pra quem,
se não há encontro.
Agonia.
Antipatia.
Voz alta, sem nexo.
Fala cansada,
gasta.
No fundo,
prefiro o silêncio:
a madrugada
diz mais —
e nada diz.

Recita

Os olhos captam.
Absorvo tudo
como esponja.

O cérebro se preenche,
não digere.

Tanta sobra
sem voz
que não sai?

Crenças caladas
entopem a saída.

É urgente respirar.

Digeriu — e agora?

Ou vomita.
Ou recita.

Poetar

A poesia nasce no extremo —
quando o corpo
já não contém.

Não é o dia claro,
a praia,
as gaivotas ao vento.

Poetar é doido,
necessário.
É a gaivota recolhida
num dia de chuva,
o mar bravio,
o voo suspenso.

Poetar é isso:
esperar o instante
em que o corpo
volta a arriscar o céu.

Gosto de escrever

Gosto de escrever poesias
Me lembram
as Anetes
as Anas
as Josefas
as Amélias
e Creuzas

Me trazem uma memória
adormecida pelo tempo
Me trazem o que ficou
no ar
no éter
no campo familiar
e eu, me sinto assim pleno
no resgate da palavra

O verbo

Como dizer
em palavras
simples —
lúcidas, claras e belas —
algo que dure?
Por mais que sejam,
falham.
Limitadas,
atropelam o sentido:
obscuras,
são fugazes.
Nada além
de um dizer.
De um pensar.
E o verbo —
não nasceria
do silencio?
Então,
por que hesitam?