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Parentes

Parentes.
Eles são tão estranhos,
esquisitos,
diferentes
e semelhantes.

Muitos,
tantos,
que nem sempre me reconheço.

Um mosaico de espelhos
que me refletem.
E não gosto do que vejo.

Neles,
no reflexo,
em mim.

Um quebra-cabeça das heranças,
que de geração em geração,
juntam e separam as peças.

Um pedaço de papel

Quero lhe mostrar os meus versos
Quero ter o seu tom
Que sustenta o verso
A cada palavra dita
E firmemente recita

Meu pedaço de papel
ainda em branco
é pequeno para todos os versos que fiz

É onde sinto a sua presença
Com a mão e o gesto firme
que acompanha cada palavra

E nesse compasso,
no ritmo certo
meu coração transborda

Meu papel ainda é pequeno
E cabe toda a sua lembrança.

Tua imagem

Tua imagem ainda é forte,
está dentro do meu peito.
Dobro e redobro,
guardo
o pedaço que ficou
de você em mim.
E, ao dobrar, dobro a vida.
Emano calor,
um pouco de dor,
mas muito de amor.

O papel de algodão

Papéis velhos,
que guardo,
escondidos.

folhas de um livro,
onde ficaram gravados
números,
palavras secas,
uma trilha
hoje distante.

Quanto tempo,
quanto tutano.

Mas o papel de algodão,
agora amarelo,
tem cheiro de manjericão.

Vaso quebrado

Vaso partido, despenca no chão.
Mas o que é, senão
cacos espalhados,
o pó sobre o enfeite
guardado há anos?
Que se desfaz,
sem qualquer palavra,
apenas o som do estilhaçar
ali, próximo à minha mão
fraca, que não pode mais segurá-lo.

Nada me ensinaram sobre a arte de viver.
Apenas vivi.
E ao olhar para mim,
por um instante, não existia nada
estava oco como este vaso
que se estilhaça em mil pedaços.

A dor

A dor nos faz andar por caminhos sombrios,
nos põe diante de nós —
sem máscaras, sem fantasias.
Já não é Carnaval.
A alegria se recolhe
e cede lugar ao silêncio.
Algo em nós observa.

A vida tá dura irmão!

A vida está dura, irmão.
Dura feito pau de canoa
que nos leva rio afora
em pensamentos.

E, sem perceber,
vamos desviando do curso.

Mas não seria o rio
a nos mostrar outras paisagens?
Onde a terra não é tão firme,
nem a água tão serena,
onde as margens cedem, barrentas?

Então siga. Não reclame!
Dentro desta canoa estreita,
reme — com força e calma —
e aprenda com as margens.

Verso final

E agora,
qual o verso final?
Por três vezes te vi partir
e você resistiu!
Saboreou cada fruto da vida,
seus olhos guardaram o mar,
seus braços envolveram os amigos,
sua boca encontrou os lábios da amada.

Ao final não existiu um verso
sua canção continuará a ser tocada
seus bailes serão em outros lugares
e nós seremos sós!

Despedida

A casa ficou vazia.
As paredes já não guardam as marcas de uma vida.
Os quadros e as flores se foram,
deixando no ar um abandono.
Ali em frente, o mar escutava tudo
e levava, em suas ondas, os rumores.
As marcas na areia se apagam,
banhadas por lágrimas e sorrisos.
O que restou ficou guardado em caixas.

abre-se o horizonte,
e a vida segue.
É o pulsar do tempo,
o movimento que nos leva —
sem resistência possível.

Companheiros de viagem

Lembro-me bem da nossa primeira vez.
Primeiro encontro.
Amantes ao primeiro tato.
Dividimos o prato,
a mesa.
Partimos corações —
os nossos.
Resistimos aos temporais
e aos vendavais.
Andamos por muitos lugares,
aos pares,
em bares.
Ficamos num só recanto.
Fizemos do mesmo gesto
um modo de seguir.
Subimos cada degrau
sem medir a altura.
Nos olhamos no espelho
e deixamos marcas, rastros
que ainda nos conduzem.