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A letra

Adormeceram, sobre o papel,
aquelas palavras —
tempo demais
sob a mesma tinta.
Presas
no suporte celulósico.

Despertem.
Soltem-se.
Desprendam-se.
Saiam
letra por letra —
até que outras palavras
se inventem.

Antes da palavra

Ainda não veio a palavra certa,
pedra dura da vesícula que não se parte,
e insiste em descer pela carne
procurando saída.

A linha que vai se formando
e rabiscando os sonhos,
Os contornos,
de uma piscina de borda infinita,
por onde vejo o mundo em ondas
de trás para a frente,
como neste caderno.

O toque do papel

O tecido do papel
toca a palma,
sua pálida textura,
acalma a alma.

Abriga cores,
riscos, rabiscos,
cartas, lágrimas e sorrisos.

A tecla não substitui
este toque,
o som que me rabisca
e me adormece.

Faço poesia

Não sei se faço poesia.
Se o que escrevo é poesia…
No entanto, faço.
Faço porque gosto,
me eleva,
me limpa a mente
dos anseios vividos.

Não sei se o que faço é poesia.
Nem entendo sua métrica.
Sempre fui seco no português,
mas sou fértil ao derramar versos.
Apenas expressão
do que vagueia entre palavras.

A letra torta

Gosto da palavra escrita no papel.
A letra torta — indecisa ou precisa —
ondulando…
Tem a minha mão,
meus erros e acertos,
longe da letra fria da máquina,
que não carrega a dúvida.
A borracha, as correções,
as marcas —
tudo escorre pela mão
e fica retido no papel.

A voz

A voz
a voz muda

muda tudo
tudo transforma
ou quase.

transforma o presente —
grande presente

a voz.

Madrugada em 1980

É o relógio que toca
para o silêncio escutar,
na noite vazia,
com os galos a cantar.
É o carro que passa,
e o rapaz a tocar
melodias sinceras
para o frio calar.
Não havia lua,
não havia luz,
somente sinos e esperança
do dia raiar.

Sentinela

Belo sentinela,
sempre atento
aos passos na praça,
ouvindo os sinos baterem
a hora
de partir.

O relógio

Eu me lembro do relógio na sala.
Era a casa do meu avô:
Casa escura, noites longas.
Tempo tão bom — eu era menino.
O tempo durava mais.
A cama fria,
a água gelada na pia,
uma gota que caía,
o assoalho que rangia
e despertava meu sono.
Um aconchego silencioso
e uma tristeza antiga
A casa, hoje vazia,
guarda em suas paredes frias
o som do relógio
e o bater do meu coração.

O caminhão

Um dia, entrei num caminhão.
Na carroceria, o vento balançava meus cabelos.
Você ainda segurava minha mão
e me deu coragem de subir,
de estar ali na estrada,
sentindo a juventude no vento.
Você me levou pro mar.
Fizemos casa na colina, na serra,
banhei-me em águas correntes.
Semeamos nosso jardim
e demos frutos.