A letra
Adormeceram, sobre o papel,
aquelas palavras —
tempo demais
sob a mesma tinta.
Presas
no suporte celulósico.
Despertem.
Soltem-se.
Desprendam-se.
Saiam
letra por letra —
até que outras palavras
se inventem.
Adormeceram, sobre o papel,
aquelas palavras —
tempo demais
sob a mesma tinta.
Presas
no suporte celulósico.
Despertem.
Soltem-se.
Desprendam-se.
Saiam
letra por letra —
até que outras palavras
se inventem.
Ainda não veio a palavra certa,
pedra dura da vesícula que não se parte,
e insiste em descer pela carne
procurando saída.
A linha que vai se formando
e rabiscando os sonhos,
Os contornos,
de uma piscina de borda infinita,
por onde vejo o mundo em ondas
de trás para a frente,
como neste caderno.
O tecido do papel
toca a palma,
sua pálida textura,
acalma a alma.
Abriga cores,
riscos, rabiscos,
cartas, lágrimas e sorrisos.
A tecla não substitui
este toque,
o som que me rabisca
e me adormece.
Gosto da palavra escrita no papel.
A letra torta — indecisa ou precisa —
ondulando…
Tem a minha mão,
meus erros e acertos,
longe da letra fria da máquina,
que não carrega a dúvida.
A borracha, as correções,
as marcas —
tudo escorre pela mão
e fica retido no papel.
Não sei se faço poesia.
Se o que escrevo é poesia…
No entanto, faço.
Faço porque gosto,
me eleva,
me limpa a mente
dos anseios vividos.
Não sei se o que faço é poesia.
Nem entendo sua métrica.
Sempre fui seco no português,
mas sou fértil ao derramar versos.
Apenas expressão
do que vagueia entre palavras.