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Autor: paradigma

O papel de algodão

Papéis velhos,
que guardo,
escondidos.

folhas de um livro,
onde ficaram gravados
números,
palavras secas,
uma trilha
hoje distante.

Quanto tempo,
quanto tutano.

Mas o papel de algodão,
agora amarelo,
tem cheiro de manjericão.

Tua imagem

Tua imagem ainda é forte,
está dentro do meu peito.
Dobro e redobro,
guardo
o pedaço que ficou
de você em mim.
E, ao dobrar, dobro a vida.
Emano calor,
um pouco de dor,
mas muito de amor.

Um pedaço de papel

Quero lhe mostrar os meus versos
Quero ter o seu tom
Que sustenta o verso
A cada palavra dita
E firmemente recita

Meu pedaço de papel
ainda em branco
é pequeno para todos os versos que fiz

É onde sinto a sua presença
Com a mão e o gesto firme
que acompanha cada palavra

E nesse compasso,
no ritmo certo
meu coração transborda

Meu papel ainda é pequeno
E cabe toda a sua lembrança.

Parentes

Parentes.
Eles são tão estranhos,
esquisitos,
diferentes
e semelhantes.

Muitos,
tantos,
que nem sempre me reconheço.

Um mosaico de espelhos
que me refletem.
E não gosto do que vejo.

Neles,
no reflexo,
em mim.

Um quebra-cabeça das heranças,
que de geração em geração,
juntam e separam as peças.

Cara

Cara,
que cara amarrada,
que coisa danada:
conflito cerrado,
cadência travada.
Cara,
parece cristão;
cospe no chão,
cruza as mãos,
cerra a paixão —
fé sem pulsão.
Cara,
caí no seu vão,
sem escolha, então;
difícil exclusão:
somos irmãos.
Cara cordato,
companheiro pacato,
que sabe de tudo
e esconde a emoção;
chora, mas não
pede perdão.
Parte o pão,
abençoa o coração.

Fontes

Uma lágrima desce,
provocada pela cena da novela.
Risos contidos se espalham pela sala,
e os apertos de mão, frios,
selam a despedida.
Nada muito emotivo é bem-vindo —
mas no fundo desejado.

Onde estão essas fontes
que não se tocam,
não se abraçam,
não se falam?
Um amor quieto,
sem lágrimas,
sem sorrisos largos,
quase envergonhado do existir.
Eu venho desse silêncio.
Bebi da mesma fonte —
Sou fontes.

Lembranças intrauterinas

Soa o bolero na vitrola.
Ele a tira para dançar.
O cenário é um céu de estrelas.
E ali valsam, ao som que já ouvia.
Entre as muitas voltas no salão,
trocam promessas.
De lá, decido vir
desse amor juvenil,
pleno.
E venho,
sigo minha viagem
e me deparo com o tempo
de memórias felizes.

Vai a rosa, vai a flor

Oh Minas, eu estou de volta.
Vejo suas montanhas,
onde o tempo se funde
com você, tão menina.

Catedrais e sinos te celebram,
acompanham teus passos
subindo as ladeiras,
pelas ruas de pedra,
sob a névoa que cai.

É festa de santos,
folias passando,
caminhos que seguem,
e as rosas que cobrem
e redescobrem você.

Cantos de viola

Cantos de viola
violeira,
lua lá no céu,
brincadeira.
Danças de manhã,
feiticeira.

Os sinos

Não sei bem por que,
mas gosto de ver,
e ouvir os sinos,
a neblina densa,
o ranger das rodas
e os cavalos no piso da rua.

Sons de trem,
paisagens de uma janela
da minha vida,
que sem disfarce,
trazem uma emoção,
quente e úmida,
de sentimentos adormecidos.

E sigo assim,
feliz por ser
e saber,
que não sei bem por que,
ainda brindo
ao gosto de ver.