A dor é inevitável! Senhora vaidosa e caprichosa, chega sem avisar. Quando vier, receba-a com atenção, com respeito e a dignidade que ela exige. Porque, cedo ou tarde, ela irá embora. E, quando for, acompanhe-a até o portão e lembre-se: agradeça a visita.
E o que vem agora? Ficar pensando? O amanhã já é outra estória e eu, embriagado de ontens, lúcido demais, quase cego. Então, sopre leve a brasa no meu peito, reacenda o que há em mim, deixe-me abrir os braços.
Quero controlar tudo, mas nem controlo os simpáticos e parassimpáticos. Quero controle. Projeto a existência — o amanhã, a vida — e ela escapa, sempre mais veloz que eu. Quero que a valsa não termine, mas nem me disponho a dançar. Preso por correntes aos pés das minhas crenças.
Às vezes me imagino ali: invento quadros na parede, flores pela casa, mesa posta, livros e poesias na estante, a casa cheia de vida. Uma varanda, uma luz vinda do Sul, um vento frio e sereno.
No entanto, a realidade se impõe: a estante tem pó, as flores murcharam, os livros já não se abrem, o vento fere o rosto, a varanda se cobre de folhas caídas, e a casa está vazia.
Mas ainda me imagino ali — com um coração que insiste, e faz pulsar, na fantasia, algo vivo. E por um instante raro, quase único, nada falta.