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Autor: paradigma

O que insiste

Faça o que precisa ser feito
não espere mais
não adie o gesto
amanhã é tarde

faça sem ansiedade
sem ruptura
sem pressa

Faça
centrado
naquilo que insiste ser
mesmo sem nome

Saberá quando retornar a ti
na face do outro
na palavra do outro
no reflexo que te reconhece.

Uma queixa

Uma queixa — e pronto:
desaba o céu.
Era só isso,
apenas um lamento.

E eu,
deixado à sombra de fantasmas
que celebram a minha dor.

Um neurônio atento dispara
antes da hora.
Não lhe chegou a notícia
de que nada disso importa?

A queixa
nasceu dela,
vive nela.

Mas eu entro na dança,
puxo o gatilho,
corroo-me por dentro
até virar ferrugem.

Quanta vida até aqui!

Quanta vida até aqui!
e ainda persisto, sem ver:
o que se cria,
o que se gera,
o que se perde,
o que se desfaz.

Continuo o caminho:
uma estrada de poeira
que, por vezes, a chuva acalma,
limpa o ar
e me atravessa.

O caminho segue.
Nele deixo rastros,
deixo um bem-querer,
deixo os frutos
que insistem em amadurecer.

Senhora vaidosa

A dor é inevitável!
Senhora vaidosa
e caprichosa,
chega sem avisar.
Quando vier,
receba-a
com atenção,
com respeito
e a dignidade
que ela exige.
Porque, cedo ou tarde,
ela irá embora.
E, quando for,
acompanhe-a até o portão
e lembre-se:
agradeça a visita.

Pausas

A mão nem sempre alcança a mente,
que pulsa,
ofegante por se expressar

O ritmo da vida é mais lento:
pede pausas
entre as palavras —
silêncios.
E meus dentes rangem aflitos!

Outra estória

E o que vem agora?
Ficar pensando?
O amanhã já é outra estória
e eu,
embriagado de ontens,
lúcido demais, quase cego.
Então,
sopre leve a brasa no meu peito,
reacenda o que há em mim,
deixe-me abrir os braços.

O real e o imaginário

Entre o real
e o imaginário
há o abismo em que vivemos.

Lá e cá,
entre mergulhos
no escuro do mar
e a plenitude —
a potência do sol
sobre a colina fresca.

É um sobrevoo,
uma onda que vai e vem,
como folha ao vento.

Não há culpa
nem castigo,
apenas a observação
do que se é.

Controle

Quero controlar tudo,
mas nem controlo
os simpáticos e parassimpáticos.
Quero controle.
Projeto a existência —
o amanhã,
a vida —
e ela escapa,
sempre mais veloz que eu.
Quero que a valsa não termine,
mas nem me disponho
a dançar.
Preso por correntes
aos pés
das minhas crenças.

Me imagino

Às vezes me imagino ali:
invento quadros na parede,
flores pela casa,
mesa posta,
livros e poesias na estante,
a casa cheia de vida.
Uma varanda, uma luz vinda do Sul,
um vento frio e sereno.

No entanto, a realidade se impõe:
a estante tem pó,
as flores murcharam,
os livros já não se abrem,
o vento fere o rosto,
a varanda se cobre de folhas caídas,
e a casa está vazia.

Mas ainda me imagino ali —
com um coração que insiste,
e faz pulsar, na fantasia,
algo vivo.
E por um instante raro,
quase único,
nada falta.

Esconderijos

Quero algo que me leve
para o buraco,
para o espaço —
onde eu deixe de existir.

Porra.
Para de encarar esse abismo.
Para com essa fissura.

O vazio,
quieto, esperando,
sabe a hora.

Por enquanto,
ficar na margem —
sem truques,
sem esconderijos.