Fui feliz
Fui feliz
lá no meio de tudo:
dos rios, das cachoeiras,
do tempo que chovia
e molhava as pedras.
Pedra menina,
ainda pequena.
E eu também.
Fui feliz ali
tão pequeno,
inocente,
diante da imensidão
da beleza,
das cores,
do todo.
Fui feliz
lá no meio de tudo:
dos rios, das cachoeiras,
do tempo que chovia
e molhava as pedras.
Pedra menina,
ainda pequena.
E eu também.
Fui feliz ali
tão pequeno,
inocente,
diante da imensidão
da beleza,
das cores,
do todo.
Um instante só
é só isso que preciso:
ver o dia clarear,
o sol subir novamente
atrás do morro
ou do mar,
aonde for, nesta terra.
Num instante só,
à beira de um portal,
de uma igreja
ou de um templo,
algo pulsa —
e me faz crer.
Tudo flui:
a semente germina,
se multiplica,
e floresce
na árvore frondosa.
E virão os ipês.
E as águas seguem
por entre pedras,
cumprindo seu destino —
e me fascino.
E por que seria diferente conosco?
Fica um resto de flor,
de alma,
de sopro.
Seja qual nome se dê
é apenas um artifício,
e angustia a razão.
Virão as chuvas,
limparão o ar,
o vento levará o que resta.
E a vida se refaz
num instante só.
Da janela vem a luz azul
Entre todas as cores
E perpassa todo o meu ser
Sentimento aflorado
O medo não é mais invisível
E se espelha no arco-íris
Onde reconheço o seu tom
Absorvo e respeito
Entrego ao universo
E sigo adiante
As cordas do meu corpo
vibram
e tocam
a minha melodia
Os arcos do meu corpo
se curvam
Vergam
e sustentam
a minha presença
Prontos para o toque
A mente já estava cansada,
mas me lembro de ver o céu —
e, a cada estrela cadente,
uma lembrança retorna.
Um sorriso escapa,
leve como você,
que me ensinou a ver
luz dentro de casa.
Que frio!
Que bom rever
velhos amigos.
Talvez nem tanto.
Viveram no mesmo tempo
que eu,
que nós,
histórias difusas
que se reencontram,
confusas
nos risos atrasados.
histórias de cada um,
de cada memória,
únicas,
perenes,
adocicadas
pela bruma
no copo gelado.
Não tenho mais nada a declarar.
Calei-me diante da miséria humana,
incapaz de compreender,
ou sequer traçar
a rota que me levaria adiante.
Chega de papéis amassados
rabiscados de desejos ingênuos.
Chega de trilhas sonoras
que já não dizem nada.
Passei. Estou passado pela vida.
Há tempo
sou vivido por ela.
O que restou?
Nada a declarar.
o relógio aponta a hora
sempre ouvi o tic-tac
e os sinos das igrejas
marcando chegadas
e partidas
começos
nascimentos
e mortes
observo a vida passar
vejo os outros
quase nunca a mim
esqueço os momentos vividos
levarei tudo comigo
ou fico nas raízes que deixo?
Eu transbordo
como o rio
avançando
sobre as margens.
Eu deixo
no mar
o excesso.
A arte me faz
desatar os nós,
e as represas
que me cercam.
Assim
invado as beiradas,
fertilizo o solo
e os manguezais.
Respiro no silêncio.
Pássaros atravessam o ar.
As cordas que me prendiam cedem —
os nós, frouxos.
Coube a mim desatá-los.
Escolho o caminho:
um pé diante do outro.
No leito do rio,
pedras —
um anseio.
Ainda assim,
deixo fluir.