A mesma palavra
Não chamamos amor à mesma palavra.
De você, vem de dentro:
gesto puro, ingênuo,
ao mesmo tempo
volátil e mutante.
De mim, vem do centro
onde me equilibro:
gesto tenso, maturado,
perene e sincero.
Não chamamos amor à mesma palavra.
De você, vem de dentro:
gesto puro, ingênuo,
ao mesmo tempo
volátil e mutante.
De mim, vem do centro
onde me equilibro:
gesto tenso, maturado,
perene e sincero.
O que é essa dor no peito?
Um ponto agudo
que, ao toque, insiste.
Algo de dentro
à beira de emergir —
e preso.
Vai e volta.
Lateja.
Sossega.
E volta a avisar:
é hora de romper.
Não há corpo que contenha.
Vontade de despejar o que ficou:
a mala que nunca partiu,
papéis escondidos,
livros não lidos,
palavras por dizer.
Até quando?
Se os passos na areia
cedem às ondas —
Preciso vomitar.
Preciso.
Não há mais tempo.
Não há mais ninguém.
Só a solidão
assiste ao que fui.
Quero jogar tudo fora
e partir
em busca de mim.
Eu guardo pedaços da sua vida que você nem imagina.
Às vezes quero que esteja aqui,
abrindo portais de sonho;
às vezes te quero longe,
onde só a memória alcance.
Sentimento estranho
que vem à boca
e se debruça sobre o papel
encardido de recordações.
Flores brancas na porta,
vermelhas nas cercas-vivas —
solitárias,
à espera de se encontrarem
Lembro-me bem da nossa primeira vez.
Primeiro encontro.
Amantes ao primeiro tato.
Dividimos o prato,
a mesa.
Partimos corações —
os nossos.
Resistimos aos temporais
e aos vendavais.
Andamos por muitos lugares,
aos pares,
em bares.
Ficamos num só recanto.
Fizemos do mesmo gesto
um modo de seguir.
Subimos cada degrau
sem medir a altura.
Nos olhamos no espelho
e deixamos marcas, rastros
que ainda nos conduzem.
A casa ficou vazia.
As paredes já não guardam as marcas de uma vida.
Os quadros e as flores se foram,
deixando no ar um abandono.
Ali em frente, o mar escutava tudo
e levava, em suas ondas, os rumores.
As marcas na areia se apagam,
banhadas por lágrimas e sorrisos.
O que restou ficou guardado em caixas.
abre-se o horizonte,
e a vida segue.
É o pulsar do tempo,
o movimento que nos leva —
sem resistência possível.
E agora,
qual o verso final?
Por três vezes te vi partir
e você resistiu!
Saboreou cada fruto da vida,
seus olhos guardaram o mar,
seus braços envolveram os amigos,
sua boca encontrou os lábios da amada.
Ao final não existiu um verso
sua canção continuará a ser tocada
seus bailes serão em outros lugares
e nós seremos sós!
Onde está você agora
que já não te vejo?
Onde anda essa andorinha?
Solta pelo céu?
E nós ainda aqui…
vendo a brisa tocar os cabelos,
sentindo um perfume que permanece,
um coração que insiste em pulsar.
Onde anda você, menino
de cabelos loiros,
que voou — leve —
feito um passarinho?
Assim, de repente.
Sem avisar.
Sem dar tchau.
Como sempre foi:
breve e alegre.
E quando um dia
a terra tocar o céu,
nos encontraremos.
Voaremos alto —
para entender, enfim,
como é a vida por aí.
A vida está dura, irmão.
Dura feito pau de canoa
que nos leva rio afora
em pensamentos.
E, sem perceber,
vamos desviando do curso.
Mas não seria o rio
a nos mostrar outras paisagens?
Onde a terra não é tão firme,
nem a água tão serena,
onde as margens cedem, barrentas?
Então siga. Não reclame!
Dentro desta canoa estreita,
reme — com força e calma —
e aprenda com as margens.
A dor nos faz andar por caminhos sombrios,
nos põe diante de nós —
sem máscaras, sem fantasias.
Já não é Carnaval.
A alegria se recolhe
e cede lugar ao silêncio.
Algo em nós observa.
Vaso partido, despenca no chão.
Mas o que é, senão
cacos espalhados,
o pó sobre o enfeite
guardado há anos?
Que se desfaz,
sem qualquer palavra,
apenas o som do estilhaçar
ali, próximo à minha mão
fraca, que não pode mais segurá-lo.
Nada me ensinaram sobre a arte de viver.
Apenas vivi.
E ao olhar para mim,
por um instante, não existia nada
estava oco como este vaso
que se estilhaça em mil pedaços.