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Autor: paradigma

O caminhão

Um dia, entrei num caminhão.
Na carroceria, o vento balançava meus cabelos.
Você ainda segurava minha mão
e me deu coragem de subir,
de estar ali na estrada,
sentindo a juventude no vento.
Você me levou pro mar.
Fizemos casa na colina, na serra,
banhei-me em águas correntes.
Semeamos nosso jardim
e demos frutos.

O relógio

Eu me lembro do relógio na sala.
Era a casa do meu avô:
Casa escura, noites longas.
Tempo tão bom — eu era menino.
O tempo durava mais.
A cama fria,
a água gelada na pia,
uma gota que caía,
o assoalho que rangia
e despertava meu sono.
Um aconchego silencioso
e uma tristeza antiga
A casa, hoje vazia,
guarda em suas paredes frias
o som do relógio
e o bater do meu coração.

Sentinela

Belo sentinela,
sempre atento
aos passos na praça,
ouvindo os sinos baterem
a hora
de partir.

Madrugada em 1980

É o relógio que toca
para o silêncio escutar,
na noite vazia,
com os galos a cantar.
É o carro que passa,
e o rapaz a tocar
melodias sinceras
para o frio calar.
Não havia lua,
não havia luz,
somente sinos e esperança
do dia raiar.

A voz

A voz
a voz muda

muda tudo
tudo transforma
ou quase.

transforma o presente —
grande presente

a voz.

Onde ninguém escuta

Tento convencer o outro
de algo que eu ainda não sei.
Falar — pra quê,
se ninguém escuta.
Falar — pra quem,
se não há encontro.
Agonia.
Antipatia.
Voz alta, sem nexo.
Fala cansada,
gasta.
No fundo,
prefiro o silêncio:
a madrugada
diz mais —
e nada diz.

Recita

Os olhos captam.
Absorvo tudo
como esponja.

O cérebro se preenche,
não digere.

Tanta sobra
sem voz
que não sai?

Crenças caladas
entopem a saída.

É urgente respirar.

Digeriu — e agora?

Ou vomita.
Ou recita.

Poetar

A poesia nasce no extremo —
quando o corpo
já não contém.

Não é o dia claro,
a praia,
as gaivotas ao vento.

Poetar é doido,
necessário.
É a gaivota recolhida
num dia de chuva,
o mar bravio,
o voo suspenso.

Poetar é isso:
esperar o instante
em que o corpo
volta a arriscar o céu.

Gosto de escrever

Gosto de escrever poesias
Me lembram
as Anetes
as Anas
as Josefas
as Amélias
e Creuzas

Me trazem uma memória
adormecida pelo tempo
Me trazem o que ficou
no ar
no éter
no campo familiar
e eu, me sinto assim pleno
no resgate da palavra

O verbo

Como dizer
em palavras
simples —
lúcidas, claras e belas —
algo que dure?
Por mais que sejam,
falham.
Limitadas,
atropelam o sentido:
obscuras,
são fugazes.
Nada além
de um dizer.
De um pensar.
E o verbo —
não nasceria
do silencio?
Então,
por que hesitam?