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Poema Tyoe Tag: A

Amendoeiras

Gosto de amêndoas,
amendoeiras,
muros baixos,
amores doces,
castanhas tostadas.
Gosto do dendê,
da cocada preta,
da brisa na varanda,
da rede —
e da vontade quieta
de nunca mais crescer.

A ilha

Faz muito tempo que parei.
De refletir,
de contar histórias
da minha vida e dos que me cercam.
Tornei-me uma ilha.
Só,
a observar o mundo à minha volta.

Jogos de palavras são para poetas.
Sou alguém
que rabisca
palavras que não me sustentam.

Por um instante, deixo a minha ilha.
Atravesso o oceano,
encontro os que me cercam
e conto histórias de mim.
E os que me ouvem, atentos,
se imaginam num filme.

Mas as palavras cessam.
O coração se aquieta.
Pertenço agora ao mundo daqueles
que sorriem à minha volta.
E, ao longe, vejo a ilha se afastando,
deserta.

Restam lembranças —
como palavras na areia
que desaparecem.

A noite

Quando a noite chega
e me vejo sozinho,
olho dentro de mim —
as camas desfeitas,
repletas de amor e carinho.
Sinto no ar a infância,
um doce desejo de ninho.
Sapatos no chão,
restos vivos do dia.

Fragmentos que ficam
sem pedir licença,
sem parar para pensar.
A vida segue ligeira,
e vamos nós, sem ver
os pequenos pontos,
que brilham no escuro
e nos guiam
por onde formos.

Amigos

Que frio!
Que bom rever
velhos amigos.
Talvez nem tanto.

Viveram no mesmo tempo
que eu,
que nós,

histórias difusas
que se reencontram,
confusas
nos risos atrasados.

histórias de cada um,
de cada memória,
únicas,
perenes,
adocicadas
pela bruma
no copo gelado.

A dor

A dor nos faz andar por caminhos sombrios,
nos põe diante de nós —
sem máscaras, sem fantasias.
Já não é Carnaval.
A alegria se recolhe
e cede lugar ao silêncio.
Algo em nós observa.

A vida tá dura irmão!

A vida está dura, irmão.
Dura feito pau de canoa
que nos leva rio afora
em pensamentos.

E, sem perceber,
vamos desviando do curso.

Mas não seria o rio
a nos mostrar outras paisagens?
Onde a terra não é tão firme,
nem a água tão serena,
onde as margens cedem, barrentas?

Então siga. Não reclame!
Dentro desta canoa estreita,
reme — com força e calma —
e aprenda com as margens.

Andorinha

Onde está você agora
que já não te vejo?
Onde anda essa andorinha?
Solta pelo céu?
E nós ainda aqui…
vendo a brisa tocar os cabelos,
sentindo um perfume que permanece,
um coração que insiste em pulsar.
Onde anda você, menino
de cabelos loiros,
que voou — leve —
feito um passarinho?
Assim, de repente.
Sem avisar.
Sem dar tchau.
Como sempre foi:
breve e alegre.
E quando um dia
a terra tocar o céu,
nos encontraremos.
Voaremos alto —
para entender, enfim,
como é a vida por aí.

A dor no peito

O que é essa dor no peito?
Um ponto agudo
que, ao toque, insiste.
Algo de dentro
à beira de emergir —
e preso.
Vai e volta.
Lateja.
Sossega.
E volta a avisar:
é hora de romper.
Não há corpo que contenha.
Vontade de despejar o que ficou:
a mala que nunca partiu,
papéis escondidos,
livros não lidos,
palavras por dizer.
Até quando?
Se os passos na areia
cedem às ondas —
Preciso vomitar.
Preciso.
Não há mais tempo.
Não há mais ninguém.
Só a solidão
assiste ao que fui.
Quero jogar tudo fora
e partir
em busca de mim.

A mesma palavra

Não chamamos amor à mesma palavra.

De você, vem de dentro:
gesto puro, ingênuo,
ao mesmo tempo
volátil e mutante.
De mim, vem do centro
onde me equilibro:
gesto tenso, maturado,
perene e sincero.

A letra torta

Gosto da palavra escrita no papel.
A letra torta — indecisa ou precisa —
ondulando…
Tem a minha mão,
meus erros e acertos,
longe da letra fria da máquina,
que não carrega a dúvida.
A borracha, as correções,
as marcas —
tudo escorre pela mão
e fica retido no papel.