Paisagem
TRISTE
OU
ALEGRE
É
UMA
PAISAGEM
QUE
SE
ESPELHA
TRISTE
OU
ALEGRE
É
UMA
PAISAGEM
QUE
SE
ESPELHA
A mão nem sempre alcança a mente,
que pulsa,
ofegante por se expressar
O ritmo da vida é mais lento:
pede pausas
entre as palavras —
silêncios.
E meus dentes rangem aflitos!
Parentes.
Eles são tão estranhos,
esquisitos,
diferentes
e semelhantes.
Muitos,
tantos,
que nem sempre me reconheço.
Um mosaico de espelhos
que me refletem.
E não gosto do que vejo.
Neles,
no reflexo,
em mim.
Um quebra-cabeça das heranças,
que de geração em geração,
juntam e separam as peças.
Eu guardo pedaços da sua vida que você nem imagina.
Às vezes quero que esteja aqui,
abrindo portais de sonho;
às vezes te quero longe,
onde só a memória alcance.
Sentimento estranho
que vem à boca
e se debruça sobre o papel
encardido de recordações.
Flores brancas na porta,
vermelhas nas cercas-vivas —
solitárias,
à espera de se encontrarem
Revisito o passado.
Passo por aquela porta ainda entreaberta.
Vejo as fotos que fizeste de mim:
memórias cristalizadas.
Vejo as fotos que fiz de ti.
Pareces feliz.
Instantes que já não existem.
Onde colocar toda a bagagem
para seguir a caminhada?
Página virada
Conto rasgado,
roído pelo tempo.
Rasgo o papel —
amasso o que fui
naquela página
ainda pulsando,
aflita de ter vivido.
Viro.
Tento escrever.
restos de versos
procuram forma
em folhas,
que já não encontro.
A poesia nasce no extremo —
quando o corpo
já não contém.
Não é o dia claro,
a praia,
as gaivotas ao vento.
Poetar é doido,
necessário.
É a gaivota recolhida
num dia de chuva,
o mar bravio,
o voo suspenso.
Poetar é isso:
esperar o instante
em que o corpo
volta a arriscar o céu.