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Poema Tyoe Tag: O

Os pós da estrada

As propagandas na estrada criavam um imaginário tentador,
mas o gosto é seco e dói na garganta.
Do alto da carroceria do caminhão, avisto uma flor.
— Pare! Eu quero descer! —
Pulo no chão: capricho ou emoção?
Um retrato de vida magnífico.
Desabrocha a imaginação:
preto e branco ou em cores,
tanto faz.
Tudo é o mesmo instante,
parado, estanque,
como a flor que agora vi.
Fotografo.
recorto, colo
em uma folha de papel.
A flor, já morta de sua beleza,
serve-nos com seu saber ancestral.
Congelamos a emoção
que escapa, fugidia.
Nada se captura,
tudo impregna:
células,
Retina.

Restam imagens
que alguém escuta
e refaz à sua maneira.

O real e o imaginário

Entre o real
e o imaginário
há o abismo em que vivemos.

Lá e cá,
entre mergulhos
no escuro do mar
e a plenitude —
a potência do sol
sobre a colina fresca.

É um sobrevoo,
uma onda que vai e vem,
como folha ao vento.

Não há culpa
nem castigo,
apenas a observação
do que se é.

Outra estória

E o que vem agora?
Ficar pensando?
O amanhã já é outra estória
e eu,
embriagado de ontens,
lúcido demais, quase cego.
Então,
sopre leve a brasa no meu peito,
reacenda o que há em mim,
deixe-me abrir os braços.

O que insiste

Faça o que precisa ser feito
não espere mais
não adie o gesto
amanhã é tarde

faça sem ansiedade
sem ruptura
sem pressa

Faça
centrado
naquilo que insiste ser
mesmo sem nome

Saberá quando retornar a ti
na face do outro
na palavra do outro
no reflexo que te reconhece.

O verbo

Como dizer
em palavras
simples —
lúcidas, claras e belas —
algo que dure?
Por mais que sejam,
falham.
Limitadas,
atropelam o sentido:
obscuras,
são fugazes.
Nada além
de um dizer.
De um pensar.
E o verbo —
não nasceria
do silencio?
Então,
por que hesitam?

Onde ninguém escuta

Tento convencer o outro
de algo que eu ainda não sei.
Falar — pra quê,
se ninguém escuta.
Falar — pra quem,
se não há encontro.
Agonia.
Antipatia.
Voz alta, sem nexo.
Fala cansada,
gasta.
No fundo,
prefiro o silêncio:
a madrugada
diz mais —
e nada diz.

O relógio

Eu me lembro do relógio na sala.
Era a casa do meu avô:
Casa escura, noites longas.
Tempo tão bom — eu era menino.
O tempo durava mais.
A cama fria,
a água gelada na pia,
uma gota que caía,
o assoalho que rangia
e despertava meu sono.
Um aconchego silencioso
e uma tristeza antiga
A casa, hoje vazia,
guarda em suas paredes frias
o som do relógio
e o bater do meu coração.

O caminhão

Um dia, entrei num caminhão.
Na carroceria, o vento balançava meus cabelos.
Você ainda segurava minha mão
e me deu coragem de subir,
de estar ali na estrada,
sentindo a juventude no vento.
Você me levou pro mar.
Fizemos casa na colina, na serra,
banhei-me em águas correntes.
Semeamos nosso jardim
e demos frutos.