Narciso puro
Embora tenha sido feito
assim, perfeito –
Narciso puro,
gosto da desordem,
da margem,
do andar sobre a linha tênue
e selvagem.
Embora tenha sido feito
assim, perfeito –
Narciso puro,
gosto da desordem,
da margem,
do andar sobre a linha tênue
e selvagem.
Não tenho berço na terra,
mas gosto do seu cheiro quando a chuva chega.
Não tenho o cinza das cidades,
mas nelas vivi muitos dos meus dias.
À beira do mar, respirei suas brisas;
o sal e a areia me pertencem.
Vejo-me nômade, sem chão.
Lugar nenhum me completa —
e, ao mesmo tempo, sou parte de todos.
Não tenho mais nada a declarar.
Calei-me diante da miséria humana,
incapaz de compreender,
ou sequer traçar
a rota que me levaria adiante.
Chega de papéis amassados
rabiscados de desejos ingênuos.
Chega de trilhas sonoras
que já não dizem nada.
Passei. Estou passado pela vida.
Há tempo
sou vivido por ela.
O que restou?
Nada a declarar.